PROJETO / 015 / ELETRÔNICA ANALÓGICA
CARREGADOR
V1
UMA FERRAMENTA QUE NÃO SABIA QUANDO PARAR.
Do transformador improvisado no Monza a uma ferramenta de bancada útil — e ao incidente que revelou, fisicamente, tudo o que ainda faltava nela.
ISTO FOI CONSTRUÍDO E USADO.[ 01 / UM PROJETO NASCEU DENTRO DE OUTRO ]
Antes de ser ferramenta, ele foi uma saída de emergência.
Este projeto nasceu no meio de outro. Durante a investigação da falha de ignição do Monza, as muitas tentativas de partida enfraqueceram a bateria. Para continuar procurando a causa da falta de centelha, eu precisava primeiro recuperar a energia que os testes estavam consumindo.
Não havia a intenção de criar um carregador sofisticado. Usei o que estava disponível: um transformador, um diodo e uma lâmpada automotiva H4 como limitador de corrente. O transformador tinha enrolamentos de 7 + 7 Vac e 22 + 22 Vac. A primeira carga ficou na ordem de 0,5 A, partindo de uma bateria próxima de 12,2 V.
[ 02 / O MESMO TRANSFORMADOR VOLTA ]
Uma improvisação ganhou uma segunda carreira.
Algum tempo depois, um tuktuk com cinco baterias chumbo-ácido de 12 V trouxe outra necessidade. Em vez de comprar imediatamente um carregador comercial caro, decidi evoluir a ideia.
O transformador era exatamente o mesmo usado no Monza. O componente que havia começado apoiado ao lado do carro passaria a alimentar uma ferramenta reutilizável, agora com controle eletrônico de corrente.
[ 03 / DE LÂMPADA A CONTROLE ANALÓGICO ]
A V1 controlava corrente. Só corrente.
A nova placa usava LM324, MOSFET, resistor shunt, potenciômetro, capacitores e componentes discretos. O shunt transformava a corrente em uma pequena diferença de tensão; o amplificador diferencial media essa diferença e o circuito ajustava o MOSFET para manter a corrente escolhida.
O esquemático virou uma montagem real em placa perfurada. Também desenvolvi um layout de PCB, mas ele documenta uma possibilidade de fabricação apenas. A montagem foi feita em placa perfurada
[ 04 / TRINTA REAIS EM UM RESISTOR? ]
O projeto esperou por quase nenhuma resistência.
Parte do desenvolvimento ficou parada esperando um resistor shunt de aproximadamente 0,1 Ω. Ele custou perto de R$ 30 — mais do que eu achava razoável pagar por um componente cuja característica principal era, justamente, quase não ter resistência.
A indignação passou. O componente ficou. E foi ele que tornou possível medir a corrente de forma previsível para fechar a malha de controle.
[ 05 / FAZER FUNCIONAR FOI OUTRA HISTÓRIA ]
O esquemático não saiu da tela pronto para a bancada.
Houve ajustes no amplificador diferencial, correções de realimentação, mudanças de componentes e testes sucessivos. Pelo menos um MOSFET precisou ser substituído depois de falhar durante o desenvolvimento.
Por volta de 6 de julho de 2026, a V1 estava efetivamente funcionando. A maior corrente testada ficou aproximadamente em 0,93 A; em uma utilização inicial, o ajuste ficou perto de 0,70 A. São registros do protótipo, não especificações de um produto.
[ 06 / CINCO BATERIAS, CINCO RESISTORES ]
Antes do barramento comum, cada bateria ganhou seu próprio freio.
Cada uma das cinco baterias recebeu um resistor de 1,2 Ω em seu ramo. Essas resistências de lastro ajudavam a reduzir diferenças e distribuir melhor a corrente antes de os ramos se encontrarem no barramento compartilhado.
Não era balanceamento de estado de carga. Era uma maneira simples de tornar o compartilhamento de corrente menos desigual entre baterias que nunca são perfeitamente idênticas.
[ 07 / DEVAGAR, MAS CARREGANDO ]
Lento e consistente — enquanto alguém observava.
A corrente relativamente baixa fazia a carga levar muitas horas. Em um acompanhamento, as baterias passaram de aproximadamente 12,94–12,95 V para 13,08–13,11 V. Depois de períodos de repouso, valores próximos de 13,0 V ainda foram observados.
A ponte retificadora ficava relativamente quente e o transformador aquecia moderadamente. MOSFET, shunt e os demais elementos permaneceram em condições mais tranquilas nos testes registrados.
[ 08 / O QUE ELE NÃO FAZ ]
Controlar corrente não significa controlar a carga inteira.
- controle automático da tensão final;
- término automático;
- perfil CC/CV completo;
- supervisão independente de sobretensão;
- proteção por química ou BMS;
- temporização de segurança.
FUNCIONA COMO INSTRUMENTO DE BANCADA SUPERVISIONADO.
NÃO É UM CARREGADOR AUTÔNOMO UNIVERSAL.
[ 09 / VIROU FERRAMENTA ]
O protótipo passou a resolver problemas reais.
Depois do tuktuk, o carregador foi usado em mais duas baterias de moto. A montagem teve uma vida útil maior do que a necessidade que a originou e, quatro meses depois da V1 funcional, ainda havia adiado a compra de um carregador comercial dedicado.
Isso não o tornou equivalente a um carregador inteligente. Tornou-o útil dentro de um limite que dependia de supervisão.
[ 10 / O DIA EM QUE EU CONFIEI DEMAIS ]
O controle continuou funcionando. Esse era justamente o problema.
Depois de vários usos bem-sucedidos, a V1 já parecia uma ferramenta confiável para mim. Em algum momento, conectei a ela um pack de células de lítio sem BMS. O carregador também não possuía controle automático de tensão adequado para essa situação.
Esqueci o conjunto ligado durante a noite inteira. O pack foi destruído. O circuito continuou mantendo corrente porque era exatamente isso que havia sido projetado para fazer; não existia nada dizendo que aquela carga precisava terminar.
O episódio não demonstra um problema do lítio. Demonstra a necessidade de proteção apropriada, supervisão e carregamento compatível com a química e a configuração de cada pack.
[ 11 / AS VIAGENS NA MAIONESE ]
Depois que a V1 funcionou, os desenhos ficaram mais ambiciosos.
Uma arquitetura mais modular passou a explorar controle CC/CV, supervisão de tensão, derating por temperatura e blocos analógicos reutilizáveis. O desenho registra a ideia; não comprova uma montagem funcional.
A exploração seguinte foi ainda mais longe, mas o esquemático nem chegou a ser concluído. Fios soltos, blocos incompletos e decisões em aberto permanecem visíveis porque este registro também preserva caminhos abandonados antes da bancada.
[ 12 / DE UM CARREGADOR PARA BLOCOS ]
Fonte, medição, controle e proteção começaram a se separar.
Os desenhos posteriores mudaram a pergunta. Em vez de construir uma caixa diferente para cada necessidade, passei a imaginar blocos reaproveitáveis.
- fonte e retificação
- medição por shunt
- corrente constante
- tensão constante
- derating térmico
- polaridade e sobretensão
- supervisão e temporização
- perfil de carga
[ 13 / CONSTRUIR OU COMPRAR? ]
Comprar provavelmente seria mais econômico. Construir ensinou outra coisa.
Um carregador comercial inteligente já reúne proteção, término automático, perfis específicos, gabinete e validação. Quando entram na conta horas, componentes queimados, protótipos, retrabalho e instrumentos, comprar pode ser a decisão economicamente melhor.
O valor desta ferramenta foi diferente: o conhecimento e os blocos permaneceram. A medição de corrente e o controle analógico podem reaparecer em uma fonte de bancada, em acionamentos ou em outros ensaios.
[ 14 / QUATRO MESES DEPOIS ]
Ela resolveu o problema que existia. O uso mostrou exatamente onde ela terminava.
A V1 carregou o conjunto do tuktuk, foi usada em duas baterias de moto e adiou a compra de outro equipamento. Também destruiu um pack de lítio quando foi usada além dos limites de sua arquitetura.
A definição mais honesta não é “carregador universal”. É instrumento de bancada supervisionado: uma ferramenta real, útil e incompleta, cuja maior contribuição foi revelar por que carregadores completos precisam saber não apenas quanto fornecer, mas também quando parar.